Conheça a história do Maracatu Estrela de Ouro em Aliança, o berço do baque solto que celebra 60 anos de resistência cultural em Pernambuco
No coração da Zona da Mata Norte de Pernambuco, onde o verde dos canaviais encontra o brilho multicolorido das lantejoulas, o município da Aliança reafirma sua posição como o santuário sagrado da cultura popular.
Conhecida como o berço do Maracatu de Baque Solto, a cidade viveu dias de glória e resistência neste Carnaval, celebrando a tradição que transforma trabalhadores rurais em guerreiros de gola bordada e caboclos de lança.
Neste ano, a cidade celebra a resistência de uma tradição que une gerações, no exato ano em que seu maior símbolo, o Maracatu Estrela de Ouro da Aliança, celebra 60 anos de fundação.
Para o prefeito Pedro Freitas, a responsabilidade é de salvaguarda: “Aliança é a terra de Mestre Salustiano. Temos a missão de manter essas raízes fortes no nosso Parque da Cultura e na sede da Associação“.
A Linhagem Salustiano: A Escola da Vida
No domingo de Carnaval (15), presença de Maciel Salustiano, que também completa 30 anos de carreira, trouxe o peso da ancestralidade para o terreiro. Filho do lendário Mestre Salustiano, Maciel reforça que o maracatu nasce do esforço braçal.
“Meu pai era o matuto, o cortador de cana que saiu daqui levando a bagagem do Cavalo Marinho e do Maracatu. Ele tirava do conforto de 15 filhos para investir na cultura. No primeiro encontro de maracatus, chegou a vender um caminhão para dar um agrado aos grupos“, relembra Maciel.
Maciel Salú, renomado rabequeiro, cantor, compositor e mestre de maracatu rural de Pernambuco, nascido em Olinda. Filho do mestre Salustiano, é um dos nomes mais expressivos da rabeca em sua geração.
Hoje, a Associação dos Maracatus de Pernambuco, que seu pai ajudou a fundar com apenas 12 grupos, conta com mais de 100 grupos ativos sob a presidência de Aluísio Almeida. Maciel ressalta a necessidade de valorização real: “Essa cultura precisa cada vez mais ser respeitada e paga com um cachê digno para esses mestres e mestras que lutam diariamente”.
Estrela de Ouro: 60 Anos de Ouro e Barro
Fundado em 1º de janeiro de 1966 por Mestre Batista, o Maracatu Estrela de Ouro chega aos seus 60 anos em 2026 como Patrimônio Vivo de Pernambuco. O continuador do projeto, José Lourenço, é a face da resiliência. Filho de Mestre Batista, Lourenço assumiu a liderança há mais de 30 anos, num momento em que o grupo agonizava com apenas seis indumentárias em condições de uso.
Em um depoimento contundente, Lourenço revela o custo pessoal de manter a tradição:
“A cultura popular depende do estado para sua formação e continuação, ao contrário da cultura de massa, que se sustenta sozinha. Eu não era brincante, assumi por ser empreendedor, mas o custo foi alto: perdi minha padaria e minha Kombi para não deixar o maracatu do meu pai morrer. Reconstruimos este grupo do nada e hoje temos reconhecimento em 14 estados, mas a falta de valorização e a descontinuidade de projetos ainda dói”, declarou.
Neste ano, a cidade celebra a resistência de uma tradição que une gerações, no exato ano em que seu maior símbolo, o Maracatu Estrela de Ouro da Aliança, celebra 60 anos de fundação.
O produtor Afonso Oliveira destacou que o Estrela de Ouro não é apenas uma agremiação, mas um Patrimônio Vivo de Pernambuco e detentor da Ordem do Mérito Cultural. “O local abriga quatro grupos culturais. É um ecossistema de tradição que já percorreu o Brasil em parceria com o SESI, levando a alma de Aliança para capitais como São Paulo, Brasília e Fortaleza”, pontuou Oliveira.
Para coroar o sexagenário, o produtor destaca que o município ganhará este ano o Museu do Maracatu Rural, consolidando a sede (uma casa histórica de 1930) como o epicentro da memória do baque solto.
A nova geração
A prova de que o baque não silencia está nos olhos da nova geração. De Condado, mas unido pelo mesmo ritmo, o jovem Alison, de 12 anos, é o rosto do amanhã, assim como dezenas de jovens que participam dos grupos. Brincando há dois anos por influência do irmão, o menino não hesita: “vou crescer dentro da cultura e levar ela pelo estado para onde for”.
Maciel Salu no palco com grupo de brincantes mirins.
Para Maciel Salustiano, ver Alison e os maracatus de criança é o que dá sentido à luta. “São eles que vão dar continuidade. Minha cultura é minha escola, minha faculdade de vida. Tudo o que sou hoje, não sei se seria sem a cultura popular“, afirma o artista, que já levou as raízes de Aliança para mais de 14 países.
O legado em números (2026):
60 Anos: Tempo de existência do Maracatu Estrela de Ouro da Aliança. 100 Grupos: Maracatus em atividade registrados na Associação em Aliança. 1930: Ano de construção da sede que hoje abriga o Ponto de Cultura e o futuro Museu. 30 Anos: Carreira de Maciel Salustiano e tempo de liderança de José Lourenço no Estrela.
Ao final da apresentação, entre o suor dos caboclos e o apito do mestre, o que fica em Aliança é a certeza de que a cultura feita por “apartadores de cana e mulheres do roçado” é a maior riqueza de Pernambuco. Como diz a tradição: o Maracatu não se explica, se sente.
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