Escola de samba homenageia o movimento de Chico Science e estabelece conexões sociais entre o Rio Capibaribe do Recife e antigo lixão de Jardim Gramacho
A lama do manguezal do Rio Capibaribe, no Recife, encontra a do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, estado do Rio de Janeiro, na noite desta terça-feira (17).
Penúltima escola a desfilar no Grupo Especial do Rio de Janeiro, a Grande Rio leva para a Sapucaí o enredo “A Nação do Mangue”. O desfile busca o título após o vice-campeonato de 2025 e aposta na transformação social como ponto de união entre Pernambuco e a Baixada Fluminense.
Responsável pela narrativa, o carnavalesco Antônio Gonzaga afirma que o ritmo pernambucano e a escola de Caxias compartilham discursos semelhantes. A inspiração para o tema surgiu de diálogos com seu pai, o jornalista Renato Lemos, que também assina a sinopse do desfile.
O projeto une a crítica ambiental à resistência cultural e utiliza a figura do caranguejo como metáfora para a criatividade das periferias.
No começo da apresentação, a escola saúda Nanã, orixá que rege a lama, com tons de roxo e vermelho. A agremiação conta com seis setores, cinco carros alegóricos e três tripés. Diversas personalidades recifenses participam da noite, incluindo Louise, filha de Chico Science. Ela desfila na ala dedicada ao legado do líder da Nação Zumbi.
A Grande Rio estabelece um nexo entre a crise que o Recife viveu nos anos 1990 e a realidade de Jardim Gramacho. Naquela época, a ONU classificava a capital pernambucana como uma das piores cidades para se viver.
O antigo lixão de Caxias, que encerrou as atividades em 2012, passa hoje por um processo de recuperação ambiental com o plantio de 150 mil mudas de mangue.
O desfile resgata o manifesto “Caranguejos com cérebro”, escrito em 1992 por Fred Zero Quatro. O texto incentivava a injeção de energia na lama para recarregar as baterias da capital pernambucana.
Na Sapucaí, esse discurso encontra a realidade dos catadores da Baixada Fluminense. O samba-enredo cita o “gabiru” que trabalha cedo e cata o lixo da maré.
No coração da escola, Mestre Fafá coordena 270 ritmistas com arranjos baseados no frevo e no maracatu. A principal inovação rítmica remete às “viagens” musicais de Chico Science e funde a batida carioca aos tambores nordestinos. Os músicos usam fantasias que homenageiam o bloco afro Lamento Negro, de Olinda, grupo que serviu de base para a fundação da Nação Zumbi.
A Grande Rio entra na avenida entre 0h55 e 01h15. A apuração das notas ocorre na quarta-feira (18).
Veja o samba-enredo da Grande Rio:
“A nação do mangue”:
Lá vem caboclo, herdeiro de Zumbi
A nação está aqui
Não se curva ao poder
Escute, nossa gente vem da lama
Resistência que inflama
Quando toca o xequerê
Casa de gueto! Casa de gueto!
Nossa voz que não se cala
Batuque sem medo por direito, é o toque das alfaias
Eu também sou caranguejo à beira do igarapé
Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré
Manamauê maracatu
Saluba, ê Nanã Yabá!
A vida parecida com as águas
Não é doce como o rio
Nem salgada feito o mar
A margem já subiu para cidade
Entre tronco e cipó, rebeldia dá um nó
Pensamento popular
Gramacho encontrou Capibaribe
Num mundo livre, quero ver você cantar
Freire, ensine um país analfabeto
Que não entendeu o manifesto
Da consciência social
Chico, Manguebeat tá na rua
Caxias comprou a luta
E transforma em carnaval!
Respeite os tambores do meu Ilê
Respeite a cadência do meu ganzá
À frente, o estandarte do meu povo
Pra erguer um tempo novo que nos faz acreditar!
Eu sou do mangue, filho da periferia
Sobre uma palafita, Grande Rio anunciou
Ponta de lança é Daruê
Dobra o gonguê, a revolução já começou!
Composição: Ailson Picanço / Marquinho Paloma / Davison Wendel / Xande Pieroni / Marcelo Moraes / Guga Martins.
Fonte: Jamildo






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