O ponto que precisa ser enfrentado com franqueza: reduzir dias não é, necessariamente, reduzir trabalho. Pode significar jornadas mais longas
O debate sobre o fim da escala 6×1 ressurge no Brasil sob o signo de uma promessa conhecida: mais qualidade de vida e melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. A pauta é legítima. Mas, como em outros momentos recentes da nossa história trabalhista, o entusiasmo exige cautela — e memória.
A discussão tem sido conduzida como se a simples redução de um dia de trabalho fosse suficiente para alterar a realidade do trabalhador. Não é. A questão central permanece praticamente intocada: a jornada semanal. Mantido o limite de 44 horas, o que se apresenta como avanço pode se revelar apenas uma reorganização da mesma carga de trabalho.
E aqui está o ponto que precisa ser enfrentado com franqueza: reduzir dias não é, necessariamente, reduzir trabalho. Pode significar jornadas mais longas, maior intensidade e menos tempo real de recuperação. A promessa de qualidade de vida, nesse cenário, corre o risco de se transformar em concentração de exaustão.
O debate público tampouco tem contribuído para esclarecer essa distinção. A proposta ainda está em tramitação e pontos estruturais seguem indefinidos, mas já é tratada como conquista consolidada. A experiência recente recomenda prudência.
A reforma trabalhista de 2017 também foi apresentada como marco de modernização e geração de empregos formais. O que se viu, porém, foi a expansão de formas mais flexíveis — e menos protegidas — de contratação. O mercado não necessariamente contratou mais; passou a contratar de maneira diferente.
Esse histórico não pode ser ignorado. Mudanças normativas, quando não acompanhadas de reequilíbrio estrutural, tendem a deslocar — e não resolver — o problema. No caso da escala 6×1, o risco é semelhante. Sem redução efetiva da jornada semanal, a alteração pode elevar o custo do trabalho formal e estimular vínculos mais flexíveis. A promessa de melhoria pode conviver, mais uma vez, com a precarização.
Soma-se a isso a ideia de que a redução da jornada levaria automaticamente ao aumento da produtividade. A premissa é atraente, mas não se ustenta isoladamente. Produtividade depende de organização, investimento e gestão. Sem isso, há apenas concentração de esforço.
O Brasil tem a oportunidade de rever um modelo historicamente exaustivo. Mas há um risco conhecido: o de produzir mudanças que alteram a forma, sem transformar a estrutura. Ao final, a pergunta é direta: estamos reduzindo a jornada — ou apenas redistribuindo a exaustão?
Sobre:
Marcelle Pereira é Advogada Trabalhista e Sindical com atuação em Direito Coletivo do Trabalho. Conselheira Estadual da OAB-PE e Secretária Geral da Comissão de Direito Sindical da OAB-PE. Sócia fundadora do Pereira & Couto Advogados Associados.
Fonte: Jamildo






Comentários do post